Os Deuses de uma Árvore - 2025
Exposição coletiva
Casa Vela, São Paulo
Texto: Nino Cais
“Os Deuses de uma Árvore” nasce de um encontro — não apenas entre artistas, mas entre modos de ver, escutar e construir o mundo.
O grupo de acompanhamento artístico aqui apresentado entende a criação como uma experiência compartilhada, onde o gesto individual se amplia no coletivo, e o olhar do outro se torna parte do próprio trabalho.
A palavra “Deus” surge neste contexto não como referência religiosa, mas como metáfora da força criadora, da potência de gerar algo a partir do invisível. O artista, como o deus de sua pequena mitologia pessoal, trabalha entre o sonho e o real, entre o delírio e o cotidiano.
A árvore, por sua vez, se torna o eixo simbólico que sustenta esse conjunto: um tronco comum que se desdobra em galhos múltiplos, cada um com sua direção, sua textura, sua voz.
É desse entrelaçamento que nascem os frutos — as obras —, expressões singulares que, no entanto, mantêm viva a ligação com a origem partilhada.
O acompanhamento artístico, nesse sentido, não é um espaço de instrução, mas de fricção e escuta.
É o lugar onde as práticas se encontram e se contaminam, onde o olhar de um artista ressoa no trabalho do outro, produzindo deslocamentos e novas percepções.
A troca se transforma em matéria: ela molda, tensiona e reconfigura a criação.
O grupo torna-se, assim, um organismo vivo — um campo de experimentação onde o processo é tão importante quanto o resultado.
Como nas tradições hindus, em que certas árvores são consideradas pontes entre o mundo visível e o invisível, esta experiência coletiva também se situa nesse território intermediário.
É no limiar entre o sensível e o simbólico que o trabalho artístico se realiza: quando o que era íntimo e invisível ganha forma e passa a circular no espaço comum do olhar.
A arte só se completa quando encontra o outro.
Da mesma maneira, o acompanhamento artístico só existe no entre — no intervalo entre uma fala e outra, entre um silêncio e um gesto, entre um trabalho e sua leitura.
Ali se cria uma linguagem própria, uma comunhão efêmera que, como a árvore, permanece em constante renovação.
“Os Deuses de uma Árvore” propõe pensar o coletivo como campo fértil, onde cada artista, ao afirmar sua singularidade, reforça também o tronco que os sustenta.
Da raiz ao fruto, da matéria à ideia, o que se constrói é uma rede de relações, uma partilha que não apenas alimenta o fazer artístico, mas o devolve ao mundo como gesto de diálogo e de nutrição simbólica.
Mercúrio - 2025
Exposição coletiva
Hermes Artes Visuais, São Paulo
Texto: Carla Chaim
A exposição Mercúrio reúne obras em diferentes mídias e propõe um campo de encontro e escuta entre práticas, pensamentos e processos em constante trânsito. O título faz referência ao deus romano associado à comunicação, à troca e ao deslocamento. Em paralelo, evoca Hermes, seu equivalente grego. Nesse contexto, Mercúrio torna-se também um símbolo de conexão: entre percursos individuais e coletivos, entre linguagem e forma, entre presença e movimento.
A expografia e os trabalhos apresentados configuram um campo de contaminação coletiva. As poéticas não seguem uma temática única, mas compartilham uma atenção ao processo, à escuta e à experimentação. O que emerge é uma constelação de vozes que se atravessam, se observam e se afetam.
Com organização de Carla Chaim, Mercúrio propõe um espaço onde o pensamento se constrói em diálogo, e o fazer individual se nutre da presença do outro.
Gesto Figura Forma - 2025
Exposição coletiva
São Paulo
Texto: Mario Gioia
Já com suas paisagens, a artista cria pequenos pedaços de outros lugares e espacialidades que podem tanto gerar pequenas crises “Cor em potência.”1 O início de um capítulo de Georges Didi Huberman em A Pintura Encarnada pode ser tomado como um dos eixos poéticos de Gesto, figura, forma, coletiva aberta neste setembro de 2025 na AM Galeria de Arte paulistana. A partir do acervo e da representação de artistas, estruturou-se três vetores de produção, em que cada nome apresenta atributos bastante evidentes e, em alguns momentos, partilham polos de contato por vezes não tão claros.
O gesto pode ser facilmente apreendido no corpus de obra de Rolf Behm (Karlsruhe, Alemanha, 1952). Em geral por meio de telas de grande escala, com técnica mista, o pintor germânico atinge bons resultados com a fusão de meios e extraindo da abstração um clima de enigma, às vezes em tom festivo, às vezes menos solar, talvez pela vivência dupla entre Berlim e Rio de Janeiro.
Olhar listrado (2023), de 1,20 m x 1, 40 m, se vale dos campos de cor em azul mais intenso que se desfazem em uma porção de listras em verde, quase como a um efeito de poluir, contaminar algo mais incólume. Já em Bice Kaa – Butta (2022) suas figuras geométricas rendem um estado de bom humor, enquanto que em outras pinturas de datas próximas a exploração de volumes redondos e ovoides chegam a conotar algo (possivelmente exógeno) de iminente perigo. Essa liberdade tanto de cromatismo como de traço que remete ao gráfico atesta as potencialidades de uma pintura que almeja o libertário e não se prende a amarras de linguagem.
Para Gesto, figura, forma, as pinturas da mineira Leonora Weissmann (Belo Horizonte, MG, 1982) revelam a excelência da artista no tráfego do figurativo, mas não deixam de trazer também as inquietações por meio de gêneros como o da paisagem. Chama a atenção a grande habilidade na produção de retratos, incluindo o seu próprio. No entanto, há sempre uma inquietude presente, que desestabiliza uma poética que poderia ser apenas predominantemente técnica. É como se o pincel, as tintas e as superfícies de Weissmann se assentassem sobre bases movediças, já que por vezes as próprias superfícies das pinturas são retiradas do entorno do cotidiano.
A partir dessa arqueologia do sensível, o persistente labor (pictórico) de ateliê parece brilhar ainda mais, com os jogos, desdobramentos e projeções da história da arte e a eleição de talvez sua linguagem mais assentada, a pintura, se alimentando de algo fugidio, transitório e precário.Já com suas paisagens, a artista cria pequenos pedaços de outros lugares e espacialidades que podem tanto gerar pequenas crises quanto apontar passagens, escapes, planos outros. Nessa investigação, ela parece se afastar do matérico tão sedutor no seu estudo plástico do humano e envereda por algo mais sem definição, uma luz a se esvair, uma solidez a se desmanchar pouco a pouco. Por isso os panoramas aquarelados a captar uma luz mais evanescente que parecem nos lançar a algo menos definitivo, verista e estanque. Mas sempre caminhando na figuração.
A paulistana Michelle Rosset (São Paulo, 1973) tem no tridimensional a predominância da sua produção, porém em Gesto, figura, forma vemos a gênese dessa obra recente. A partir da série fotográfica Forma, casa (2018-24), em que as imagens rebatidas, desdobradas e criadas fugazmente pelo jogo de luz e sombra na própria residência exibem uma geometria do dia a dia e de existência frágil e sutil. Como se corporificasse essas vontades da forma, ela parte para objetos, inicialmente, de pequena monta, em geral utilizando materiais comuns e não nobres. Tal como se a arquitetura brutalista tão típica de SP se encontrasse com o neoconcretismo não dogmático (e mais praticado por artistas do RJ) e, daí, resultasse em novas estruturas, formas e concreções. Um resumo de como nossos lampejos do construtivo foram mais flexíveis e permeáveis ao não planejado e escaparam de programas mais rígidos.
Rosset é nome contemporâneo que sabe do legado de medalhões como Amilcar de Castro (1920-2002) e Franz Weissmann (1911-2005), tão bem exibidos na própria AM, contudo não se curva à tal herança. Parte do corte e dobra e de outros elementos desses autores e cria, por uma práxis dela mesma, novas experimentações de forma, cor, luz e matéria. Nesse sentido, as curvas de Estrutura tensionada (2025), Corpo de papel (2025) e CM III (2023) são reveladoras da busca não linear na investigação da artista e comprovam que tal geometria doce tão presente na nossa história da arte ainda propicia diversos e numerosos passos e etapas a se desenrolar por mais tempo que imaginamos.
1.DIDI-HUBERMAN, Georges. A Pintura Encarnada. São Paulo, Escuta/FAP Unifesp, 2012, p. 40.
Radar - 2025
Exposição coletiva
São Paulo
Texto: Julie Belfer Sarian
Você está prestes a entrar em um espaço recém-transformado para participar ativamente de um evento itinerante que propõe um formato um pouco diferente do modelo que você já conhece. Deixe expectativas e pré-conceitos do lado de fora. Aqui, a experiência é para conhecer, apreender, pertencer.
Este evento é uma vontade compartilhada, idealizado por três grandes mulheres (como em outras ocasiões no campo das artes visuais #moma) que estruturaram um modelo de trânsito do mercado da arte com uma entrega maravilhosamente delicada e profissional.
A Radar abre canal para trocas diretas, transparentes e enriquecedoras para todas as partes. Se identifica com leveza e acolhimento.
Os artistas transitam entre diferentes suportes, momentos de carreira e abordagens que variam entre o conceitual e o formal. Todas as pesquisas têm o mesmo valor.
Você, que veio em busca de diálogo, atualização ou aquisição, faz parte dessa composição. Ao entrar, integra a construção de um nicho dentro do vasto sistema da arte. Reconheça a importância de acessar artistas para além das galerias, validando suas pesquisas e produções. Prepare-se para assumir suas escolhas ao adquirir uma obra – investir na trajetória de um artista, incorporar um patrimônio nacional e lidar com o impacto que isso causará nos seus afetos.
Esta é a parte prazerosa.
Sem mais delongas, damos boas-vindas à Radar.
Mantenha suas antenas ligadas, vá devagar, busque a presença no caos e conecte-se.
Cama de gato - 2024
Exposição coletiva
Edifício Vera, São Paulo
Texto: Carol Soares
Curadoria: Nino Cais, Carla Chaim e
Marcelo Amorim
Cama de gato consiste em um jogo. Nele, faz-se necessário um fio de barbante cujas pontas são entrelaçadas por um nó. A partir daí, é proposto um emaranhado de linhas que resulte em formas presas aos dedos e sustentadas entre as duas mãos. Em seguida, essa tecitura é passada para as mãos de outra pessoa, mudando a forma inicial para, então, propor outras.
Lembro que, quando criança, nos reuníamos na calçada de casa em roda, e o emaranhado de linhas era passado de mãos em mãos. A brincadeira só acabava quando algum adulto alertava para o passar das horas. Na minha memória, já muito editada, persistiu o resíduo de uma experiência que não se valia apenas de não desfazer as elaborações formais, mas de um momento de muitas conversas, trocas, risos e até mesmo algumas briguinhas. Diferente dos adultos, que se sentam e conversam, crianças brincam e conversam.
A partir de seu caráter lúdico, acrescento que cama de gato faz-se também pelas transmissões, revezamentos, elaboração e passagem de padrões adiante em idas e vindas, doação e recebimento, modelagem de formas sustentadas entre as próprias mãos, compartilhamento de experiências, criação de narrativas. Enfim, estar junto. Arrisco pensar que, seja no plano da brincadeira, fora dos ditames da teologia, das categorias estabelecidas e da funcionalidade, podemos vislumbrar outros mundos.
Resgatando Donna Haraway, cama de gato assemelha-se a um sistema biológico que conceitua como simpoiese, que designa como algo produzido coletivamente, sem limites espaciais ou temporais autodefinidos. Todas as informações e controles são distribuídos entre os envolvidos. Nisso, é aceito o risco da contingência.i
E assim se faz, há 13 anos, o Hermes Artes Visuais. Como na cama de gato, um fio vai se emaranhando em encontros, trocas de experiências, formas feitas, desfeitas, refeitas, diálogos, movimentos, entrelaçamento de narrativas, possibilidades de encontros e desencontros, de estar e fazer junto. Ali, como no jogo, há a abertura para dar e receber padrões mas, também, soltá-los. O Hermes, ao longo de suas atividades conduzidas pelos artistas Carla Chaim, Marcelo Amorim e Nino Cais, vem propondo a retransmissão de conexões que importam. Cada pessoa, ali presente, tem a chance de receber os fios e passar adiante formas que se fazem uma a uma.
Aliás, a forma está longe de se encerrar em uma unidade coerente, uma estrutura ou entidade autônoma restrita a leis internas. Ao contrário, ela é apenas uma parte na totalidade de outras formas existentes. Como define Nicolas Bourriaud, “a forma só assume sua consistência (e adquire uma existência real) quando coloca em jogo interações humanas; a forma de uma obra de arte nasce de uma negociação com o inteligível que nos coube”.ii Por meio dela, o artista inicia um diálogo. O Hermes torna-se, então, esse território aberto ao imponderável, àquilo que não se inscreve de antemão. Nenhum artista chega com uma obra que não possa se desdobrar, virar outra coisa, ganhar novas camadas, diferentes narrativas. Ali, cria-se uma teia em que todas as pessoas, como num acordo tácito, optam por apoiarem-se, caminharem juntas.
Nesse emaranhado de linhas, a exposição Cama de Gato reúne os artistas Adriana Amaral, Alan Nielsen, Dip, Alexandre Frangioni, Ana Val, André Ianni, Caio Borges, Cali Cohen, Camila Boranga, Carlos Monaretta, Chiara Sengberg, Cynthia Loeb, Daniela Schiller, Daniela Torrente, Débora Amaral, Duda Breda, Ellion Cardoso, Fernanda Carvalho, Fernanda Luz Avendaño, Flavia Renault, Giovanna Maria, Helena Malnic, Ilka Lemos, Jade Gomes, Juliana Cunha, Juliana Monteiro, Kika Simonsen, Lana Moraes, Leo Damonte, Liane Roditi, Luana Lins, Maria Lucia Simonsen, Lu Borges, Luiza Lavorato, Magali Camacho, Malu Tigre, Maria Barbosa, Maria Renata Pinheiro, Michelle Rosset, Miriam Bratfisch Santiago, Nadira Yanez, Ósi, Dita Jun, Renato Palmuti, Roberto Unterladstaetter V., Rosana Pagura, Saulo Szabó, Sheila Kracochansky, Simone Dutra, Simone Fontana Reis, Suelen Lima, Suely Bogochvol, Susy Miranda Aziz, Vitor Martins Dias, Yohana Oizumi e Yumi Shimada.
Num mundo regido por um sistema neoliberal que proclama (grita!) a todo instante o individualismo, a autossuficiência, a rigidez de modelos pré-estabelecidos, o controle dos corpos, colocar-se presente no contingencial é fazer-se a partir da escuta atenta e relacional com o outro, é permitir-se desfazer o já feito, é compreender aquilo que Mario Pedrosa chamava de “a missão regeneradora da arte”, que seria a de “dar estilo a uma época e transformar os homens, educando-os a exercer os sentidos com plenitude e a modelar as próprias emoções”.iii
Esse exercício pleno dos sentidos é proposto a cada atividade do Hermes quando pessoas se sentam ao redor de uma mesa e, na transversalidade desse gesto, compactuam compartilhar suas dúvidas, inquietações, ideias, conceitos, compreensões de mundos, angústias, afetos, processos. Ali é tecida, coletivamente, uma simpoiese que se abre para múltiplas possibilidades, fazendo transbordar, pela arte e seus diálogos, a nossa capacidade de nos transformar e esperançar outros mundos.
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i Haraway, Donna J. Ficar com o problema: fazer parentesco no Chthuluceno. Tradução Ana Luiza Braga. São Paulo: N-1 edições, 2023.
ii Bourriaud. Nicolas. Estética relacional. Tradução Denise Bottmann. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
iii Arantes, Otília (org.). Acadêmicos e modernos: textos escolhidos III/ Mário Pedrosa. São Paulo: Edusp, 2004.
Pequeno Ato - 2023
Exposição Individual
Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro
Texto: Bianca Bernardo
“Talvez amanhã possa dar também de meus olhos, de minha solidão e de minha teimosia a alguém que será um artista como eu ou talvez ainda mais, como você.”
Lygia Clark em Carta à Mondrian
Certa vez, lendo o livro de correspondências trocadas entre Hélio Oiticica e Lygia Clark na década de 1970, encontrei uma frase que me pareceu uma expressão para a vida. Assim, guardei gentilmente no meu bolso, para nunca esquecer: “toda carta é um pedaço de pessoa”. A frase passou então a reverberar em voz alta algumas perguntas que, mesmo sendo feitas, não buscavam por respostas exatas, igualmente, algumas cartas são escritas para não serem enviadas.
A pesquisa artística de Michelle Rosset para a exposição Pequeno Ato, sua primeira individual na Anita Schwartz Galeria de Arte, tem como ponto de partida as correspondências poéticas entre Lygia Clark e Piet Mondrian. Em maio de 1959, quinze anos após a morte de Mondrian, Lygia escreveu uma carta endereçada ao artista, na qual compartilha um relato íntimo e devastador sobre o papel formador e ascendente que sua obra exerceu sobre ela e outros artistas de sua geração. Lygia nos diz que “se eu trabalho, Mondrian, é para antes de mais nada me realizar no mais alto sentido ético-religioso. Não é para fazer uma superfície e outra. Se exponho é para transmitir para outra pessoa este “momento” parado na dinâmica cosmológica, que o artista capta”.
A crise da estrutura, desencadeada por Mondrian, será levada por Lygia às expressões mais radicais da experiência do espaço, principalmente, quando a artista reflete sobre a superficialidade da abstração geométrica e começa um processo de transição em direção ao espectador como objeto de si mesmo. Do diálogo com Mondrian, passou a explorar novas formas de existir e se relacionar com o mundo, abandonando a ideia de contemplação passiva para uma poética da participação.
Ao percorrer esse rastro, Michelle Rosset produz uma obra capaz de tensionar o escultórico no espaço, na sua relação com o corpo, a geometria e a arquitetura. As esculturas são primeiramente modeladas em papel. No ateliê da artista, como um canteiro de obras, as folhas são delicadamente dobradas, criando novas formas e movimentos inesperados.
O estado do brincar é despretensioso, envolve a ação de Michelle entre a descoberta e a invenção. Posteriormente, as pequenas esculturas em papel são elaboradas em alumínio, projetadas em cores puras, como foram defendidas por Mondrian. No entanto, ao adicionar o elemento fundamental da linha curva, Michelle faz emergir novas percepções com os conceitos do neoplasticismo, provocando aproximações com o pensamento percorrido pelo neoconcretismo brasileiro.
A exposição Pequeno Ato retoma o manifesto de uma nova posição, ancora o fazer artístico à uma vivência do tempo-espaço, permitindo à artista uma concepção subjetiva e o envolvimento do espectador como agente participativo de uma obra que é concretizada no encontro. Se toda pessoa é também uma carta, e a escrita um exercício de significação do mundo, as esculturas de Michelle Rosset estão escritas no diálogo com a história da arte e no convite ao “fazer fazendo”, que seja contínuo e conjunto. Porque para ver, é preciso caminhar.
Toda Volta - 2023
Exposição Coletiva
Galeria Babel, São Paulo
Texto: Theo Monteiro
Curadoria: Carla Chaim e Nino Cais
Em uma era moldada pela rede social, o acesso à imagem nunca foi tão democrático e facilitado. Somos bombardeados por imagens a cada instante, e quase nenhum passo (ou clique?) é dado sem antes sermos confrontados com uma sequência de estímulos visuais. A consequência de se viver na era da imagem, uma delas, e talvez a mais decepcionante para os iconófilos é que, uma vez mais acessível do que nunca, a imagem nunca foi tão descartável. Se consumimos milhares delas num único dia, as descartamos (ou esquecemos delas) quase que na mesma velocidade. Paradoxalmente, em um momento no qual as mais refinadas tecnologias são empregadas na construção das mesmas, tornando-as cada vez mais chamativas e atraentes. Todo esse engenho é empregado em um artifício cada vez mais efêmero.
A presente exposição reúne o trabalho de vinte diferentes artistas, todos integrantes do Hermes Artes Visuais, grupo de acompanhamento dirigido por Carla Chaim, Nino Cais e Marcelo Amorim. Falamos aqui de trabalhos muito distintos entre si, e de artistas com trajetórias completamente singulares. Mesmo assim, existe algo que parece os unir para além da participação no grupo (ou seria justamente por causa dela?): em uma era onde a imagem parece progressivamente ser reduzida a uma “lágrima na chuva” (para citar o não tão utópico assim Blade Runner), esses artistas tem algo a dizer.
Em boa parte dos trabalhos abundam os rastros, fragmentos e memórias. Elementos cotidianos condenados ao desaparecimento aqui parecem se eternizar, tendo seu potencial expressivo amplamente explorado. O mundo em que habitamos está presente em todas essas poéticas, por mais distintas que elas sejam entre si, e os artistas nos fazem prestar atenção em elementos que facilmente passariam batidos por um olhar menos treinado. Artistas, como são, que tornam visível, que dão a ver.
Na era da imagem, é peculiar que os nome aqui reunidos não se detenham somente no conteúdo apenas temático das mesmas: em um momento no qual a arte parece regressar a uma certa primazia do tema, flertando com uma narrativa por vezes quase que publicitária, os membros desse coletivo parecem, com procedimentos algo arqueológicos, buscar a essência dos elementos, sua alma, coisas cuja efemeridade não caberia talvez em um método quantificável ou científico, mas que ecoam naquilo que temos de onírico, de íntimo e, porque não, de humano.
Eduardo Galeano é autor da frase “os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me diz que somos feitos de histórias”. Histórias essas que nos compõe, que falam sobre aquilo que somos, e que revisitamos para compreender ou reafirmar nossa essência. A linearidade da cultura do descarte acaba cedendo lugar para o aspecto circular das memórias e, porque não, de nossa existência.
O que ancora - 2023
Exposição coletiva
Samba Arte Contemporânea, Rio de Janeiro
Texto: Ademar Britto Jr
Curadoria: Nino Cais e Carla Chaim
A Exposição Coletiva "O que ancora" na Galeria Samba, traz ao Rio de Janeiro trabalhos de 24 artistas de diferentes locais do Brasil, participantes do Acompanhamento de Projetos do espaço independente Hermes Artes Visuais em São Paulo e apresenta trabalhos em diversas mídias como pintura, colagem, desenho, escultura, fotografia e vídeo. O título da exposição, "O que ancora", vem de uma proposição dos curadores, em que os artistas em diferentes barcos de tamanhos, materiais e contextos diversos, que navegaram em diferentes mares, oceanos e rios, e ancoraram temporariamente em um mesmo local. Remetendo à chegada em um lugar outro, ao ato de firmar-se em novas terras, à ideia de amparo, proteção, fazendo também alusão à particularidades dos componentes do grupo e suas produções artísticas únicas.
Com intuito de estimular potencialidades e o desenvolvimento do processo criativo, foram realizados encontros semanais entre orientadores e integrantes, ambos artistas, partindo de uma metodologia horizontal, sem relação mestre/aluno, em um formato que todos participam ativamente com críticas e reflexões relativas aos trabalhos apresentados. Um dos primeiros artistas/professores a utilizar essa metodologia no Brasil foi o austríaco Axel Leskoschek (Graz, Áustria 1889 - Viena, Áustria 1975), que nos anos 40 já realizava encontros com discussão conjunta dos trabalhos produzidos pelos alunos, de forma bastante inovadora, diferente da metodologia acadêmica da época. Dos seus alunos da época destacam-se Ivan Serpa (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1923 – Idem, 1973) e Fayga Ostrower (Lodz, Polônia, 1920 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2001), que anos depois viriam a se tornar também professores e dar continuidade ao tipo de ensino horizontal.
Em seu livro "Criatividade e Processos de Criação" de 1976, Ostrower trata o processo criativo como um potencial próprio de todo ser humano, não estando restrito a alguns poucos agraciados, sendo esse potencial uma de suas necessidades como ser humano criativo. Ou seja, toda pessoa é capaz de criar e assim o faz como condição de sua existência, podendo expressar essa criatividade nas mais variadas áreas, sendo o que nos momentos nos interessa, a criação de obras de arte. Para ela, entre a ideia de uma obra de arte e de fato a finalização da sua execução, existe um caminho a ser percorrido, podendo ser realizado de forma individual, ou recorrer ao coletivo. No caso das obras aqui apresentadas, os artistas compartilham o fato de terem contato entre suas produções durante o processo de criação e andarem juntos, em paralelo, no caminho do conhecimento. Essa troca quase simbiótica, não implica em convergência de pensamento ou em diminuição de suas particularidades, pelo contrário, o contato com diferentes modos de pensar e outras proposições em arte torna ainda mais rico, suscetível a novas abordagens de um problema antigo, trazendo assim novas possibilidades de resultados.
Por vez Fayga Ostrower, que lecionava na sua casa em Santa Tereza foi professora das artistas Lygia Pape (Nova Friburgo, Rio de Janeiro, 1927 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004) e Anna Bella Geiger (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1933), essa última professora do Parque Lage dando continuidade à metodologia. E assim a troca de conhecimento não encastelado, humanizado, sensível e saudável se dá. Esta exposição é fruto deste tipo de experiência.
A Extensão do Hiato - 2022
Exposição individual
Belizário Galeria, São Paulo
Texto: Shannon Botelho
Todo gesto artístico é uma operação criadora ocorrida num determinado tempo e espaço. A duração deste ato, por vezes medido através da matéria dos sonhos e da memória, como define Henri Bergson, compõe a experiência através da qual um artista pode instaurar sua pesquisa e construir a sua poética. Nesta exposição, Michelle Rosset divide conosco seu modo peculiar de sublimar o tempo através dos gestos e da manipulação das formas, descortina a medida vigente entre a expectativa e o acontecimento, apresenta-nos A Extensão do Hiato.
Ao olhar em uma perspectiva temporal, sabemos que a artista possui interesse nos vestígios da linguagem e em suas permanências. Nas séries de trabalhos anteriores, buscou em antigos livros e dicionários, os suportes sobre os quais produziu as obras que atravessam o campo da pintura. Neles encontrou as palavras, imagens autonomizadas e fantasmáticas, formas combinatórias que povoam seu imaginário e se apresentam como um elemento poético para sua criação. Definindo a palavra como uma instância da imagem no tempo, desde a série Gênesis, apresentou uma visão sobre a perenidade da escrita e os limites do verbo. Surgiu daí, o interesse naquilo que é material e figura em suas composições como ordenança, suas faixas coloridas, compostas por fitas utilizadas para o restauro de livros antigos.
A presença da cor emergiu deste contexto como uma ferramenta de sublimação temporal. A esta altura, a cor passou a estruturar a imagem, não mais as palavras. Nos trabalhos da série Espaços, não havia mais narrativa – mesmo que neles ainda averiguemos índices da escrita –, tampouco a constituição subjetiva de cenas ou formações geométricas. Neste momento uma virada aconteceu, pois, a cor tornou-se uma pausa no fluxo verbal que atravessou a pesquisa da artista, dos textos provenientes dos livros até as suas mais recentes esculturas. A cor, como estrutura e instância do tempo, tornou-se a própria coesão da poética formulada por Michelle. Mas como falar da pujança das cores e não situar a sua função estrutural nas formas geométricas? Pois, há algo despontando na pesquisa da artista, que é a noção construtiva da cor que formula engates e áreas de jogo, onde as experiências visuais tecem seu sentido não narrativo, mas puramente abstrato.
O contexto sanitário dos últimos anos, configurou uma duração tensa e pesarosa, forneceu a todos outras percepções temporais, em especial nos momentos de confinamento. A noção alargada de tempo, em que cabe a definição bergsoniana de duração, fez com que Michelle Rosset pudesse experimentar a dilatação temporal, ampliando a sensação de espaço e aguçando os sentidos no vácuo dos acontecimentos. Assim, lançando mão da fotografia como um meio expressivo, ela pode perceber a presença de formas e projeções imagéticas em seu cotidiano. Os triângulos, ausências de luz sobre áreas iluminadas pelo sol, despertaram nela um interesse, fazendo-a acolher estas estruturas geométricas em suas criações e, a partir delas, romper a suspensão do tempo e ancorar na experiência mesma da criação um método de combinação afetiva destas áreas geometrizadas de cor.
Impôs-se, então, uma lógica de ordenamento, em que a ação deliberada consistia em separar formas iguais através de um gesto no tempo. Pausá-las ad infinitum nas colagens ou nas esculturas. O procedimento é simples e remonta, em outra dimensão, os exercícios do mineiro Amilcar de Castro. Riscar, cortar, girar e engatar, tornaram-se ações imperativas no feitio das obras. Em cada experiência, uma expectativa final da forma era criada. A obra acabada, o acontecimento, põe termo ao hiato, ao processo. A duração do ato criador é, ele mesmo, A Extensão do Hiato.
De modo poético, Michelle Rosset induz no observador a esperança de que todas estas formas pudessem bailar em movimento perpétuo, como durante o momento de sua confecção. Mas na impossibilidade, as obras formalizam uma pausa de mil compassos – como escreveu Paulinho da Viola –, balizando o hiato e instaurando extensão e ordem para a fruição estética. Deste rigor, impõe-se um estado destilado de atenção que convoca a ciclicidade do tempo e faz com que nos situemos entre a expectativa e o acontecimento, entre a ideia e a forma concluída, entre nossas primeiras impressões e a apreensão dos sentidos da obra. A Extensão do Hiato é, portanto, a face palpável de uma duração que se configura como resultado da experiência de Michelle Rosset, seu embate com a percepção do tempo – e do espaço – no ato criador.
Saravá - GAS - 2022
Exposição coletiva
Anita Schwartz Galeria de Arte, São Paulo
Texto: Bianca Bernardo
O gás é a matéria em estado fluido. Invisível, inodoro, de forma variável e qualidade expansiva, é um elemento etéreo, abstrato e simbólico. Por vezes, no imaginário social, é associado à ideia de frescor, como na publicidade, e noutras, àquilo que é combustível para o movimento. Para além de suas construções simbólicas, em seu estado físico, ele pode ser multiplicado, dividido e transformado, ocupando todo espaço que preenche. Apropriando-se de suas características, o Projeto GAS pretende impulsionar a circulação de artistas jovens e em meio de carreira para dilatar os horizontes e sublimar fronteiras. Atendo-se à materialidade das partículas que impulsionam o movimento, o projeto tem o objetivo de ser uma espécie de força motriz para a escuta de novas vozes através da produção de projetos de exposições e acompanhamento artístico, como um difusor para a criação de uma atmosfera no cenário da arte contemporânea brasileira.
Romper a superfície é abrir um rio para dentro - 2022
Exposição coletiva
Fonte, São Paulo
Texto: Paloma Durante
Curadoria: Nino cais e Carla Chaim
Todo acontecimento possui potência de invenção por gerar novos fragmentos no mundo. A abertura de outros possíveis, na proposição de dobras na realidade, perturba porque dá a ver que todas as coisas vibram em um movimento de constante impermanência: toda matéria é um eterno fronteiriço prestes a romper, formada e deformada por meio das afetações quando entra em contato com outra matéria. Tudo o que está existe em constante remodelação de si mesmo, mas em movimento junto de outro. Se por um lado isso permite encontrar certa fluência, caminhos e continuidades nos encontros e vibrações que incidem nessa matéria –que encarna em sua superfície todos os toques, colisões e acidentes -, por outro lado, revela-nos com sua fragilidade a lembrança de estarmos todos sempre por um fio. É inevitável: há de se aprender a ser finito. Penso na ensinança bonita narrada pelo poeta libanês Khalil Gibran, ao falar da coragem absoluta do rio em dissolver-se por completo para se tornar mar, mas não sem antes vivenciar tremores, resultado do choque violento ao cruzar a membrana aquosa que diz para cada uma de suas gotas: és agora água salgada. Se fabulássemos uma história da hidrologia, o sal seria sua primeira cicatriz. Digo cicatriz porque, diferente de como estamos acostumados a pensá-la – pelo aspecto da dor ou do erro -, a cicatriz é esse leque de possibilidades de como a matéria pode se readaptar depois de uma ruptura. A vida está sim, sempre por um fio, mas, ao mesmo tempo, seu único destino é perseverar.
É pela cicatriz, por exemplo, que entendemos que algumas situações nos impõem a invenção de uma nova corporalidade. O problema não é a situação que deixa marcas, mas o nosso desvario de acreditar que é possível manter-se ileso no que é acontecimental da vida - um eterno rasgar-se e remendar-se, já dito pelo Guimarães Rosa. É também pela cicatriz que perdemos a referência entre o que é interior e exterior ao perceber que, mesmo a matéria mais densa, mais rígida, pode se fragmentar até chegar a um tamanho ínfimo e que, do ponto de vista da trama celular, não existe a ideia de avesso, apenas integração – algo que não é nem dentro, nem fora, nem um, nem outro, mas os dois ao mesmo tempo. Perceber as tendências reativas de um corpo, a cartografia desenhada por aquilo que vai se rompendo sobre uma superfície, é uma resposta não só para o que ele recebeu enquanto vibração, mas do que pode transmitir, já que não existe aparição que não se enderece a algo. Por ser o processo cicatrizante a proposta de uma nova conformação, testemunhá-lo é presenciar a atuação do tremor, da origem e da imaginação em uma única estrutura, ao tornar-se índice e vestígio. Consequência do vivido, de uma experiência, a pergunta talvez não seja o que aconteceu, mas o que se faz daquilo que [nos] acontece?
Veja que coloco a pergunta no presente. Faço-o por uma crença inexorável de que a memória é sempre do agora, e é ela quem leva o hoje ao fato ocorrido. Lembrar é uma intenção afetiva, ou seja, as situações que resgatamos são sempre modeladas pelos sentires que estão nos atravessando no momento em que lembramos de algo. É por isso que a cicatriz é incapaz de contar uma história por si. Primeiro, porque desconhece o conceito de história; segundo, porque tendo este caráter indicial, é a tradução de um acontecimento que nunca cessa de acontecer, já que o ressignificamos toda vez que contamos sobre ele – as situações se deslocam, mudam de ordem, fazem uma curva. Então, se na nossa narrativa invertermos a lógica de que a cicatriz fala do passado, e a colocarmos no lugar das coisas que existem no tempo presente, mas o presente espesso de que nos fala a filósofa Donna Haraway, esse capaz de criar uma ponte entre passado e futuro sem aniquilar qualquer uma de suas relações, integrando todas elas, a cicatriz não será apenas a manifestação de uma ruptura e seu restauro, mas possibilidade de atualização, inaugurando sentidos outros para essa marca.
Composta de matérias sensíveis em comoção, a exposição Romper a superfície é abrir um rio para dentro reúne trabalhos de diferentes matrizes relacionais que buscam explorar as multiplicidades que envolvem pensar o tema cicatriz por meio da acolhida da soltura, do buraco, da impermanência, do rasgo, da ferida, da interferência, da interrupção, da vulnerabilidade, da reformatação, da edição, do encaixe, do que é possível fazer quando algo cede, do que é viável quando algo deixa de existir, do que sobra do sumiço, do que nasce da morte. Cada trabalho constrói uma espécie de mito de origem impossível de se capturar em uma narrativa em linha reta, por preservarem em si certo estado de convulsão que acaba por fundir meio, fim e começo. Assim como o processo de reconstrução celular dos tecidos, cada trabalho usa da ruptura - seja ela a do próprio material ao tornar o gesto um algoz, seja pela perturbação de um atravessamento - como possibilidade de criação. Adicionam, com a estranheza das marcas que trazem, mais uma camada de tecido ao plano da realidade por não enveredarem à tarefa vã de tentar restituir o que [se] era antes de uma ruptura, mas por trabalharem em cima da matéria disponibilizada pelo que cindiu. É um convite a ouvir os tremores que surgem do rompimento. Ou a vibração do renascimento.
Experiências do Tempo - 2021
Exposição coletiva
O ATELIÊ 100, São Paulo
Texto: Shannon Botelho
“Qualquer tempo é tempo. A hora mesma da morte é hora de nascer.
Nenhum tempo é tempo bastante para a ciência de ver, rever.
Tempo, contratempo, anulam-se, mas o sonho resta, de viver”.
Carlos Drummond de Andrade
Imperativo sobre tudo e todos o tempo é, antes de tudo, uma experiência. face dupla de algo, ele pode ser criador ou criatura, medida ou combustível. O tempo é fluido, múltiplo. Caracteriza-se por uma constante que nos traz até aqui hoje para celebrar os 10 anos de O Ateliê 100, lugar onde ana rey, Marinalva Rosa e Rita Heckert realizam suas pesquisas e produzem os seus trabalhos. Nesta ocasião, as anfitriãs convidam outras duas artistas, Andrea Brazil e Michelle Rosset, para comporem a exposição.
assim como o tempo que se apresenta diferente para cada indivíduo, as poéticas das artistas possuem interesses peculiares, revelam um enfrentamento do mundo e do transcorrer dos dias. Apesar das diferenças formais e de pesquisa entre os seus trabalhos, há um nexo entre eles que se estabelece no interesse pela cor e pela forma no exercício ampliado do desenho e da pintura. Em virtude destes interesses, os quais as artistas convidadas compartilham, é que pensamos em abordar as Experiências do Tempo. pois, se o tempo é uma medida e um meio pelo qual experimentamos o mundo, todos os trabalhos aqui encapsulam em si mesmos os momentos de suas criações, concepções e projeções.
Ao longo destes dez anos as artistas de O Ateliê 100 puderam desenvolver seus trabalhos, transitando entre os domínios da pintura, do desenho, da escultura e dos objetos. Em Experiências do Tempo vemos que o interesse pelo cotidiano, seja nas formas reais do mundo, das frestas das janelas, nas folhas de revistas, tornou-se um meio de experimentar a própria vida, revelando-se como um modo comum de operação poéticas nos trabalhos.
o relembrar e o projetar encontram-se no campo movente do agora. aqui não falamos simplesmente do passado ou do futuro. antes, adentramos o presente com as vivências passadas e as ideações do porvir. Experiências do Tempo, portanto, é um espaço de partilha das memórias, dos sonhos e daquilo que desponta como horizonte possível para cada uma das artistas e suas poéticas.
É na vigília que se começa a sonhar - 2019
Exposição coletiva
Espaço Di Pace, São Paulo
Texto e Curadoria: Paulo Gallina
Você precisa entender: a vida não passa de um sonho. Porque é breve, porque é intensa e porque o mundo desperto também pode se dobrar à vontade humana. Afinal, a humanidade chegou à lua por suas escolhas ou por seu inescapável destino? Foi o arbítrio humano que usou a matéria do mundo para construir aparatos e, por fim, alcançou-se o único corpo celeste quase integralmente visto abaixo do céu. A vigília de todos os dias permite à humanidade sonhar, tanto quanto o descanso de todas as noites.
Esta exposição explora a pesquisa plástica dos artistas Anna Guilhermina, Gabriel Nehemy, Mariana Mattos, Michelle Rosset e Patricia Carparelli para estimular seu visitante à uma potência contida nas obras deste grupo: entender o fluxo do mundo como a matéria prima dos sonhos, lúcidos ou embriagados pelo sonhar. Inspirar os indivíduos a almejarem o impossível, esticarem seus braços e aproximar a realidade da pura potência que, não raro, é notada a despeito de ser invisível. Porque o Sol, para os homens que miram sombras nas paredes, é tal qual uma lâmpada. Se quisermos pensar a partir do mito da caverna de Platão. Estes artistas sabem a verdade: sabem que a luz, representada por pincéis ou aparatos fotográficos, é muito diferente se vinda dos céus ou do raio. As obras selecionadas tencionam as imagens apresentadas em busca, talvez, da descoberta daquilo que se encontra abaixo das veladuras criadas pelo cotidiano. O que se vê, ao cabo, são formas soltas do suporte, flutuantes: revelando uma mirada sobre o que o mundo é e sobre o que ele poderia vir a ser.
A fotógrafa Anna Guilhermina intervém sobre impressões fotográficas. Algumas formas circulares ou angulares habitam as paisagens capturadas pela artista. Partindo do simulacro do mundo, Anna Guilhermina revela detalhes e destaca superfícies para comentar a presença humana dentro da natureza selvagem. Pequenas ilhas de cor aludindo às formas humanas – masculino e feminino – a procura de um lugar harmônico para habitar. Não raro, as intervenções da artista são atravessadas por linhas de costura ou de escrita. Afinal, é por signos que a comunicação se faz. O absurdo que é deparar-se com o mundo e perceber-se pequeno como um grão de areia é, assim, alegorizado em imagens em busca do retrato daquilo que é sentido durante o sonhar.
O pintor Gabriel Nehemy, por sua vez, cria composições atravessadas pelo caos. Como se sua intenção não fosse plasmar uma imagem do mundo, e sim transferir para tela o estranhamento e confusão de deparar-se com algo tão grande e imensurável como o firmamento. Para este artista, ordem e caos servem como opostos complementares. Inseparáveis por premissa, porque um a ordem suscita a percepção do caos. Limitar suas pinturas a representar o mundo, portanto, seria também constranger a potência comunicativa desta pesquisa pictórica. Como consequência, os materiais que formam a imagem são um dos elos entre quem vê e o que se vê. Neste recorte procurou-se entender como Gabriel, em certa medida, nega a representação que a pintura pode criar em busca da imagem sobre a tela como uma irremediável presença no mundo. Uma força pictórica capaz de alcançar não a pele, mas o centro dos sujeitos que observam suas obras.
Mariana Mattos, por sua vez, ativa a pintura através de um outro filtro entre a vigília e o sonhar: a memória. A artista transforma paisagens em habitações da memória ao distorcer as figuras com seus pincéis. O escorrimento e a mancha de tinta, na obra de Mariana, são elementos técnicos reveladores da intenção da artista de impedir a reprodução plena da paisagem. Porque a memória não é simplesmente uma notação do mundo, tal qual um filtro fotográfico o registro memorial é guarda, para além de situações, impressões relacionadas ao estado de espirito do individuo que as produziu. Para se criar o retrato de impressões vagas e estado de espírito, a memória humana e as pinturas de Mariana Mattos, deixam lacunas na imagem. Espaços coloridos por pincéis subjetivos, incapazes de revelar qualquer paisagem em detalhes e incapazes também de esconder-se enquanto marca sobre a tela. Uma vez transformada em massas, as vistas produzidas precisam ser preenchidas pelas expectativas de seus observadores. Obrigando uma relação mais profunda entre sujeito e obra, do que o simples contato de suas peles.
Patricia Carparelli retrata com suas pinturas o puro fluxo. O movimento dos dias está para a gestualidade da pintora, como a luz está para os olhos: sem entender-se que o movimento do pincel e do corpo é o que está sendo retratado. Como se a mudança de posição, por mínima que seja, fosse o motivador da imagem e não um meio para se alcança-la. Em seu processo de atelier, Patricia consegue criar as cores em formas fugidias, dispostas a soltarem-se e simplesmente sair voando: eternamente flanando em busca de uma forma ou um corpo para se fazer notada. O gesto sutil das aquarelas em oposição aos rastros do pincel sobre a tinta nos pequenos suportes ou ao traçado dos desenhos, revelam ao observador atento, a relação harmônica procurada pela artista. Enquanto Mariana Mattos busca plasmar sobre a tela as impressões da memória, Patrícia Carparelli insinua uma libertação total das formas internas aos seres humanos em relação às presenças enunciativas[1] do mundo. Ao mesmo tempo, a artista parece buscar, com suas imagens, uma nova forma de comunicação. Uma, talvez, capaz de acessar aquilo que está contido dentro da pele de cada um.
Por fim, a obra de Michelle Rosset pareia o movimento do pincel ao da pena. Dentro desta seleção de trabalhos procurou-se destacar como a artista desconstrói as cifras da comunicação para reatar estes nós em uma nova forma de se falar. Assim, os papéis pintados, rasurados, recortados e colados formulam um alfabeto gráfico, não fonético. As imagens de Michelle são reorganizadoras de um conjunto de grafismos à espera de um olhar sensível capaz de decodificá-los. Assim como o significado de um livro é maior do que a somatória das palavras contidas em suas páginas, as peças gráficas de Michelle Rosset revelam as cifras de uma comunicação direta entre o olho e a intuição de seu observador. Quase pedindo a quem mira suas peça: mergulhe na cor para descobrir um mundo interno e comum a todos os seres.
Cada gesto e cada interação entre artista e imagem são, dentro desta curadoria, uma peça central no labirinto dos dias cuja rotina aniquila os sonhares despertos que impulsionam os seres humanos a almejarem ser melhores. Afinal, as partes e o todo de uma imagem relacionam-se criando uma narrativa mista sobre experimentar o mundo e referir-se à experiência de encontrar-se com ele.
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[1]. Há um problema na cifra que é a linguagem como a conhecemos: como descrever aquilo que não se pode apontar? Porque se um sujeito nunca sentiu esperança, como ele pode saber o que é isso? Pior: Como se pode saber que o que uma pessoa entendo como esperança é semelhante ao entendimento de outra? É importante ter-se em mente o que especula o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889 -1951): a cifra linguística, como a temos, é essencialmente enunciativa.
Ser, habitar, imaginar - 2018
Exposição coletiva
Concrete Space, Miami
Texto e Curadoria: Aluna Curatorial Collective
"Habitar significa deixar rastros." afirma Walter Benjamin, para quem a arquitetura é a forma de arte mais antiga, uma vez que a necessidade de abrigo antecederia todasas demais expressões. Este é o tema de Ser, Habitar e Imaginar, uma mostra coletiva de artistas brasileiros emergentes. Qual a relação entre os rastros que deixamos ou observamos nos arredores das cidades, ou em interiores que modelam nossa forma de presença no mundo? Ao mesmo tempo, qual a relação entre este mundo que habitamos e o ato de imaginar?
A exibição acontece em dois andares. No primeiro, as obras remetem à conexão ontológica e social, como a noção de um lugar habitado a partir de vestígios de arquiteturas, e também de espaços simbólicos representados em diversos meios. O conceito habitar compreende a carga simbólica de certos lugares marcados pela história e também de outros rituais presentes nestes lugares como os mercados populares. Embora predominem as explorações sobre a cultura urbana, o projeto também elenca o habitar de populações indígenas, como a Aldeia Kuikuro, no Mato Grosso, Brasil.
No segundo andar, as obras se desdobram entre universos fantásticos e poéticos. Pinturas e trabalhos gráficos contendo universos interiores comoventes e emotivos, nos quais prevalecem imagens de crianças em espaços conectados à memória.
Entre habitar e imaginar, há uma transição de mundos reais a possíveis, com exploração de lugares geográficos que nos marcam, mas também imergindo em espaços íntimos onde, para além do belo ou do terrível, nos deparamos com o incrível potencial humano de nos reinventarmos.
Ana Calzavara, fotografa o interior e o exterior, inabitados ou em estado de suspensão, usando técnicas de cor, estrutura e chiaroscuro para criar imagens que devolvem à arquitetura o nosso olhar de apreciação dos lugares que habitamos.
Marcelo Macedo recupera fragmentos de objetos em desuso, como madeiras de objetos ou lugares, para a série geométrica Grande Rede, que por sua vez é marcado pela influência que o construtivismo teve na arquitetura brasileira dos anos 50.
Liene Bosquê explora práticas diversas da arquitetura como arquivos da memória coletiva ou até mesmo vestígios íntimos. As fotos de sua série Legado documentam a instalação efêmera que fez com fita adesiva, desenhando móveis nos espaços vazios do sítio de sua avó em Garça, logo após o seu falecimento. O gesto conceitual, que remete Joseph Kosuth, ganha uma conotação íntima; podendo também ser repetido incessantemente em outros espaços, transformando-se no nosso eco. Os tijolos de sua obra AMEZ foram produzidos com látex e evocam a mais antiga igreja afro americana em Syracuse, com materiais frágeis aplicados sobre a superfície atual da construção para capturar resíduos, criando, literalmente, traços da identidade de um lugar chave da história da cidade. Transformado em arte, o local histórico, antes frágil, adquire uma nova durabilidade.
Através das fotografias de piscinas vazias ou cheias, Maritza Caneca registrou vários lugares ao redor do mundo. Depois de contemplar sua própria memória no fundo de uma piscina abandonada na casa de seus avós, ela criou um diário de registros de água, refletindo momentos da história de cada lugar. Já a relação de Antonio Bokel com os vestígios é construída em composições nas quais a justaposição e o hibridismo das fontes acabam unificando a evocação de construções urbanas e da natureza, que modo que o grafite "mancha" as paredes. A combinação de madeira crua, gestos gráficos expressionistas e os traços arquitetônicos também nos relembram o modo como Niemeyer e Burle Max transferiram as formas da natureza às suas próprias construções. O tecido urbano, que se abre em camadas de imagens com enorme liberdade gestual, abriga o seu trabalho e constrói parte de nossa memória de paisagens contaminadas pelo caos.
Mano Penalva evoca a grade que, segundo Lucy Lippard, formara a matriz da modernidade. É com um senso de humor iconoclasta característico que ele emprega - com a técnica readymade - estantes usadas por vendedores de rua para colocar os produtos à mostra. Assim, ele mantém esculturas de baixo custo e sobretudo fáceis de transportar, como uma versão da mala duchampiana, que enaltece os sonhos engrandecedores da modernidade e torna-se um gesto de apropriação da estética popular. Esta também é a fonte de suas viagens pelos mercados e fábricas da Cidade do México para coletar imagens da sexualidade das estátuas e observar sua relação com o privado. Levou mais de quinhentas fotos de "roupas dobradas, lonas de mercado e gestos dos trabalhadores" cobertos de amarelo, como as últimas páginas de uma lista telefônica e das peles de uma cidade. Como estrangeiro, ele registra espaços de comércio informal como um modo de ser e habitar, retratando a sobrevivência através da permuta de produtos e outros modos de coexistência da arquitetura.
As fotografias e desenhos em papel em diálogos que Ivonete Leite e Daniel Taveira tiraram em suas viagens; Liene Bosquê com suas performances e Michelle Rosset construindo em superfícies palpáveis que incitam o desejo palpável, estão reunidas em uma sala onde a relação é explorada entre a superfície das paredes, os tecidos, o corpo humano, a história e a mesma geografia da terra que habitamos. Leite apresenta fotografias aéreas do sítio arqueológico de Masada, um dos lugares simbólicos mais relevantes, responsável por representar a resistência de um povo e a defesa da autodeterminação. Um lugar chave para os Judaicos de fé, Taveira retrata as mãos de um homem religioso rezando no festival anual de Timkat, "uma celebração cristã ortodoxa da Epifania - referência ao batismo de Jesus no Rio Jordão". Os tecidos que cobrem a peça funcionam como um abrigo para o sagrado.
A obra exposta de Mariza Formagginni consiste de uma pequena seleção de fotografias tiradas durante uma travessia que levou cinco anos. Investigando, como parte de um projeto multidisciplinar, as rotas, os rituais e os usos populares de flauta em regiões diversas do Brasil. Selecionamos, entre centenas, imagens que revelam aspectos minuciosos do habitar na reserva indígena do Alto Xingu: a integração entre corpo e natureza, os costumes ocidentais e rituais ancestrais se revelam nesta série documental, cuja virtude não é o momento perfeito e sim o contrário, o registro do habitual que dá forma a uma ontologia própria.
No segundo andar da mostra, a relação com o ser - não menos afetiva - se apresenta a partir da conjugação do verbo "imaginar" em espaços conectados à memória da infância, como num espaço vago, mostrando lembranças ofuscas da infância de Mauricio Mallet. Entretanto, não limitada à imagem superficial do paraíso perdido: contém a profundidade das contradições humanas; um oceano no qual às vezes flutuamos sozinhos, como no trabalho de Karla Caprali, que não tem medo de expor em suas peças uma verdade ardente. A violência afetiva ou política também se faz espreita em alguns de seus bordados com meninos e meninas de personagens rodeados pelo desassossego do mundo.
Os personagens jovens desenhados a tinta por Thainan Castro sobre papel possuem uma infinita delicadeza; pulam corda, empurram uma roda e brincam com a areia nas linhas de poesia que não podem - e nem precisam - ser lidas, e sussurram um segredo fora do nosso alcance. Mateu Velasco também pinta o mundo das crianças, sempre com uma enorme nuvem de caos no lugar de suas cabeças, onde paira uma infinidade de pequenos objetos. Frequentemente, figuras como coelhos ou peixes incorporam-se a uma iconografia que gira ao redor da urgência - ou da impossibilidade - de comunicar-se com os cosmos dentro da mente alheia. O que Velasco, Thainan e Mallet têm em comum é insinuar a urgência da imaginação para transitar no labirinto do mundo em que vivemos.
